Ruas cheias de pessoas que andam apressadas tentando fugir dos grandes gigantes vitrificados de concreto armado que as cercam por todas as ruas.
Perigo ao atravessar as grandes avenidas, lotadas de bestas famintas por gente, bestas que deslizam pelo solo de asfalto pintado de branco e colorido por luzes verdes, vermelhas e amarelas rosnando e soltando fumaça na tentativa de intimidar aos que lhe cruzam o caminho.
Com destino certo e longínquo, passos firmes e apressados caminham as pessoas em busca de abrigo seguro para a noite que ameaça desabar sob a cabeça de todos de forma ameaçadora.
Rapidamente nos colocamos em curso. Dezenas de curvas, retas, subidas, decidas e paradas repentinas e começamos a deixar para traz a paisagem moderna e ameaçadora para adentrarmos um novo território.
Ruas menores e coalhadas de paralelepípedos, construções velhas e de poucos andares, iluminação amarela e espaçada, poucas pinturas brancas, ausência de luzes coloridas, algumas árvores nas calçadas, poucas pessoas a pé. Ambiente de transição...
O velho e o novo em contraste na mente. Confusão mental.
O rápido e lento em contraste na mente. Confusão mental.
O amplo e o estreito em contraste na mente. Confusão mental
O grande e o pequeno em contraste na mente. Mais confusão na mente...
Melhor desligar!
O rosnar da criatura que me digere parece diferente, alimentada, menos estressada, torna-se constante. Lá fora, quase escuridão. Não há luzes amarelas ou coloridas.
Estrada de única via, suspensa por elevados pilares e que atravessa enorme espelho d´água em direção ao desconhecido. À frente, apenas a escuridão.
Que ameaças me aguardam fora da proteção das grandes estruturas espelhadas de concreto que direcionam e ditam meus pensamentos? Sinto-me inquieto e preocupado. Talvez não tenha sido boa idéia...
E a volta como será?
Algumas curvas suaves e descidas lentas e sou excretado em novo ambiente.
O ar é fresco e perfumado. Enormes árvores cobertas de flores e cipós à beira da estradinha de terra irregular, fontes de água que brotam formando pequenas represas nos jardins das casas que foram serradas dentro dos enormes troncos de árvores seculares cujos diâmetros descomunais parecem abrigar confortavelmente famílias inteiras compõe o local.
O emaranhado de raízes expostas sobre o solo impressiona pela beleza e complexidade. As coisas misturam-se em todas as direções. Cipós, jardins, fontes d’água casas e até mesmo as ruas parecem um só.
Estética, beleza, equilíbrio e simetria ganham novas definições neste lugar silencioso onde lembranças, canções, melodias, palavras e até pensamentos voam livremente iluminando o ambiente solitário. Vez por outra fadas e gnomos se deixam ver à distância, trazendo um pouco de conforto para a expedição solitária e agradável.
Sinto-me energizado, fortalecido, confiante, plenamente capaz de enfrentar os dragões do dia.
Os mistérios da temida noite, a solidão e o silêncio tornam-se aliados para a preparação de um novo expediente na cidade grande. Não há mais expectativas quanto à volta e tudo ocorre em um ritmo lento, natural e equilibrado.

Final de Expediente na Cidade Grande (http://www.guilherme.fraenkel.nom.br/Existologopenso/final-de-expediente.php) por Guilherme Fraenkel está licenciado sob a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Compartilhamento pela mesma Licença 2.5 Brasil License.
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