Dona Joaninha e o Jardim da Amizade

Era uma vez uma joaninha, bem pequenininha, vermelha com pintas pretas e um par de pequeninas asas que morava no pequeno jardim de uma família composta por papai, mamãe e dois irmãos muito bagunceiros e que adoravam brincar de balanço.

Dona Joaninha, como gostava de ser chamada, era amiga de todos. Era uma alegria só.

Conversava com os grilos que comiam as folhas do jardim.

Passeava com as formigas que moravam em um formigueiro no pé da árvore onde vivia.

Cantava com os passarinhos, seus vizinhos.

Fofocava com a dona aranha, que morava nas telhas da casa da família.

Trocava idéias com os morcegos, vizinhos da aranha, sobre técnicas de piruetas e acrobacias aéreas.

Visitava as abelhas, que faziam um mel delicioso.

Dona Joaninha era amiga de todos. Sempre tinha um sorriso gostoso, uma palavra amiga ou uma farta gargalhada para alegrar a roda dos moradores daquele jardim. Até o dia em que uma forte tempestade caiu no local.

Os fortes ventos que faziam as árvores se curvarem, os relâmpagos que clareavam a noite escura, os trovões que podiam ser ouvidos a léguas de distância e a chuva que caía incansável causaram pânico em todos os moradores daquele jardim.

Todos tiveram muitos prejuízos naquele dia. As crianças tiveram seu balanço destruído, alguns passarinhos teriam que procurar gravetos para concertar seus ninhos, a aranha teria que concertar alguns estragos em sua teia, os morcegos perderam a entrada principal para a toca, as formigas teriam que refazer suas trilhas, as abelhas teriam que construir uma parte da colméia que não resistiu. Mas a Dona Joaninha foi quem ficou mais triste.

Sua casa, que havia sido construída em um buraquinho do galho mais alto da árvore do jardim, que estava toda mobiliada com galhos, pedras e flores, havia sido totalmente destruída naquela noite. O grande galho não resistiu à ventania trazida pela tempestade e foi ao chão logo nas primeiras horas.

Dona Joaninha estava tão triste que chegava a soluçar de tristeza. Não haviam gargalhadas, sorrisos, nem palavras alegres. Só um choro que não acabava...

Os moradores do jardim, solidários à dor da Dona Joaninha, deixaram suas atividades de lado e trataram de se organizar para dar uma nova casa para aquela pequenina amiga que durante tanto tempo vinha trazendo felicidade para o jardim.

Os grilos trataram de sair pelas redondezas em busca das mais belas e resistentes folhas para refazer a mobília da casa.

As formigas trataram de sair procurando pedrinhas brilhantes para enfeitar a nova casa.

As abelhas começaram a fazer o mel mais delicioso que já haviam feito em suas vidas.

A aranha começou a tecer uma teia nova que poderia servir de colcha para a cama da joaninha.

Os morcegos começaram a planejar o maior show de acrobacias aéreas jamais visto na história da aeronáutica.

Os passarinhos voaram para o jardim vizinho em busca de um pica-pau, que se prontificou imediatamente a ajudar na tarefa de esculpir uma nova casa na árvore para a Dona Joaninha. A final de contas, disse ele, quem nunca ouviu falar da alegria contagiante e das aventuras da Dona Joaninha...

Até as crianças da casa contribuíram com sua alegria. Ficaram tão felizes com a descoberta de um passarinho que fazia furos em árvores que esqueceram o balanço e trataram de passar a tarde toda a espiar o pica-pau, que trabalhava freneticamente para fazer um buraco na árvore. Era um passarinho diferente de todos os que já haviam visto.

Os passarinhos capricharam tanto no encantamento musical que até as pessoas que passavam pela calçada paravam para ouvir as alegres melodias compostas. Um deles chegou até a tomar um susto, porque não imaginava que existissem tantos passarinhos nas redondezas. Achou mesmo que alguma loja de animais os tivesse soltado.

A pesar das rosas destruídas, do balanço entortado, das telhas arrancadas e dos galhos caídos, a tarde foi de muito trabalho e alegria para aqueles amigos que queriam trazer de volta a felicidade da pequenina joaninha.

A inauguração da casa nova foi uma festa ainda maior. Vieram bichos de todos os jardins vizinhos, o show dos morcegos foi inesquecível, afinal ninguém havia visto morcegos fazendo acrobacias tão perigosas antes, passarinhos tão ativos à noite, grilos tão falantes. Teias tão grandes e brilhantes...

A família que morava na casa do jardim foi dormir mais tarde, encantada com o show dado pelos moradores do jardim que respondiam à grande e destruidora tempestade da noite anterior com muita exuberância e alegria. Parecia que a tempestade havia despertado a vontade de viver e festejar nas redondezas.

A Dona Joaninha não acreditava no que via. Sua casa havia ficado ainda melhor que a anterior. Sua felicidade não podia ser traduzida em palavras e era tão grande que decidiu que nunca mais ficaria triste novamente.

Àquela festa se seguiram muitas outras e da última vez que ouvi falar de Dona Joaninha e do jardim da amizade, fiquei sabendo que as festas estavam cada vez maiores, os jardins das redondezas estavam aderindo à idéia e ficando cada vez mais belos, floridos e cheios de pássaros e insetos.

E até hoje as pessoas que moram por lá tentam entender como uma tempestade tão destruidora pode ter provocado uma resposta tão bela da natureza...

Mas nós sabemos a resposta não é?

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