Oi. O meu nome é João e eu gostaria de contar para vocês como foi que conheci o Pedro, meu melhor amigo.
Foi há 1 ano; eu estava trocando de colégio, tinha acabado de repetir de ano por causa de faltas e não conhecia ninguém na nova escola.
Estava muito chateado por ter que deixar para traz todos os meus amigos e de não poder mais jogar basquete, já que a nova escola só oferecia aulas de natação e futebol.
Levei um grande susto no primeiro dia de aula. Já estava acostumado com os garotos muito altos, acho que por causa do basquete, e me senti o Estranho no ninho. Eu era o mais alto de todos na escola, nem os garotos da sétima e oitava séries eram mais altos que eu.
Não conseguia me enturmar, achei que as pessoas não iriam gostar de mim por ser muito alto e decidi que não faria novos amigos.
As vezes tinha a impressão de que os outros alunos ficavam me zoando por causa da altura, mas como não falava com ninguém, não me importava. Os risinhos e dedos apontando na minha direção eram comuns.
Eu vivia triste, não tinha ninguém com quem conversar, até que um dia conheci o Pedro. Assim como eu, ele também havia acabado de chegar na escola. Seu pai tinha sido transferido para a nossa cidade no final do ano e toda a família estava se mudando. Ele não conhecia ninguém, mas logo tratou de se enturmar.
Pedro vivia metido com um pessoal da oitava série, eram ao todo 5 garotos que andavam sempre juntos. Só jogavam futebol de salão porque eram um time completo, chegavam e saiam da escola no mesmo horário, lanchavam juntos, iam à praia juntos, estudavam juntos. e parecia que se divertiam muito.
Certo dia encontrei o quinteto fantástico em um shopping perto da praia e como eu estava jogando o game predileto deles. Uma vez que eu não pretendia sair tão cedo e eles tinham que hora para chegar em casa, tiveram que jogar comigo.
Como jogo muito bem, eles não conseguiam me derrotar para me tirar do jogo e aos poucos fomos criando intimidade. Acabei ensinando vários golpes especiais a eles e nos tornamos amigos.
Eu não gostava muito de fazer o que eles faziam. Não gostava de jogar futebol de salão ficava sempre na de fora, torcendo para esquecerem de mim e não ter que jogar. Não curtia muito acordar cedo para ir para a escola e tecar gude antes da aula e nem de ficar até altas horas na rua depois da escola, mas estava sempre junto com eles.
Um dia a turma da oitava série foi a um passeio e, como não éramos da oitava série, Pedro e eu fomos separados de nossos amigos.
Na hora do recreio encontrei o Pedro sentado na beira da piscina brincando com um barquinho de papel. Como não falava com mais ninguém, sentei do lado dele para descobrir o que ele estava fazendo. Descobri que ele queria ser marinheiro e trabalhar em grandes navios, assim como seu pai, que havia sido transferido de cidade devido a uma promoção. “Ele agora era segundo tenente e vai trabalhar em um porta-aviões”, disse Pedro cheio de orgulho do pai.
Conversamos muito naquela tarde, coisa que não fazíamos muito. Descobri que não gostávamos de futebol e nem de tecar gude. Detestávamos andar com garotos mais velhos, gostávamos de soltar pipas e ambos nos sentíamos estranhos no ninho, eu pela altura e ele por ser gordinho.
No dia seguinte decidimos que não faríamos mais coisas de que não gostávamos e acabamos nos separando do grupo. Acho que nossos colegas, Vitor, Alan, Gabriel e Sandro, não gostaram muito de nossa decisão. Parece que o pessoal da turma deles ficou zoando porque “os pirralhos da sexta e sétima séries estavam esnobando o pessoal da oitava”.
Passamos a ser alvos de piadas e brincadeiras agressivas de toda a oitava série, até o dia que eu e o Pedro, muito irritados com tudo aquilo, decidimos reagir. Como eu era muito mais alto que todos na escola e o Pedro era muito gordo, não foi difícil dar uma lição no Quarteto fantástico. Batemos tanto neles que acabamos suspensos da escola por uma semana. Nossos pais foram chamados na escola e ficamos de castigo em casa também.
Fiquei muito mau quando meus pais contaram o resultado da confusão que havia arrumado com o Pedro na escola.
O Vitor foi para o hospital e levou pontos no braço e na testa por causa da lição. Os pais do Alan ficaram com tanta vergonha quando souberam da atitude de provocação do filho que mudaram ele de escola. O Gabriel e o Sandro ficaram de castigo por 2 meses sem poder jogar futebol e tinham que sair da escola e ir direto para casa.
A volta para a escola foi muito estranha. O pessoal continuava sem falar comigo, mas não havia mais dedos apontando para mim. Apenas cochichos. Parecia que os outros alunos estavam com medo do que eu poderia fazer com eles. Passei a ser respeitado por todos, mas mesmo assim não me sentia incluído no grupo.
O clima ficou tão ruim que pedi para meus pais me trocarem de escola. Iria começar tudo novamente. Dedos apontando para mim, chacotas, piadas de mau gosto, exclusão...
Mas aí lembrei daquela tarde na piscina com o Pedro. Nos aproximamos, mesmo sem ter nada em comum além do sentimento da falta de amigos. Conversamos, trocamos idéias e fortalecemos laços. Acho que vou tentar a mesma receita na nova escola. Não preciso fugir com medo de ser diferente, também não preciso fazer coisas que não gosto para ser aceito e muito menos agredir para ser respeitado. Só preciso ser eu mesmo e aceitar os diferentes.

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